
A maneira com que nos identificarmos com os problemas universais do ser humano é a mostra do nosso comodismo perante a arte. Sermos Emmas Bovary em todos os lugares e condoermo-nos com as grandes tragédias tornou-se muitas vezes lugar comum para alguns que acreditam absorver a obra literária em sua totalidade sem muita reflexão. Mas quando uma verdade indesejável nos cospe na cara? Seriamos capazes de identificarmo-nos com Jeca Tatu e o problema de sua raça, o caboclo? Ou seria melhor continuarmos a afirmar que Emma Bovary continua sendo nós?
O caboclo, tenha ele qualquer nome e aqui representado na figura de Jeca Tatu da obra Urupês de Monteiro Lobato, é um devastador selvagem, apropria-se da terra e utiliza-se dela até a exaustão. Não possui nenhuma técnica que o faria se fixar no lugar em que escolheu (sobre)viver, é a priori um nômade supersticioso. Portanto, "o caboclo é uma quantidade negativa", como conclui o próprio narrador de "Urupês" ao descrever Jeca Tatu e seu modo de vida, seria, assim, o oposto do ato civilizador e não teria com ele nenhuma relação.
O que seria esta sensação de civilização que falta no caboclo? O que o torna tão diferente de qualquer um de nós ou mesmo de Lobato? Aparentemente parece ser um rancor econômico da parte do narrador que ao ironizar minuciosamente as atitudes do Jeca esqueceu de olhar para dentro de si e de sua própria história. Só porque ele possui em livros e em conversas pontuais de café a política ou a ciência ou por conhecer alguns nomes de uma outra tradição e poder perpetrar a partir daí algumas relações, ele se torna o homem civilizado. É porque devasta de forma regrada e sua superstição tem caráter de religião, amparada na teologia, que o caboclo seria o mais baixo de todos os homens. É porque ele não tem domínio da linguagem, "de pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa", que se mantém abaixo de todos os outros na escala da importância humana. Porém, a pergunta que faço ainda permanece e sem resposta: o quão diferente ele é do devastador selvagem? Deixou de ser humano?
Não quero negar que exista a civilização e suas benesses, eu vivo e sobrevivo dela ao apoiar meu fazer diário nela. A questão que está em jogo é quão longe de nós está Jeca Tatu e o quê o afastamento proposto pelo narrador no conto "Urupês" em seu foco narrativo evidência com tanto desgosto.
Monteiro Lobato não errou ao descrever o caboclo ou ao colocar preconceitos raciais na boca de senhoras fazendeiras, ele era um homem de seu tempo e seu tempo exigia a modernização em que Jeca Tatu era um atravanco na ordem civilizatória. O erro foi de nossa época ao levar em tanta consideração um discurso datado e ideológico. Ao invés de olharmos para Monteiro e sua escrita como se estivéssemos olhando para o passado, acreditou-se que ele representava o pensamento corrente e que poderia ainda influenciar o pensamento atual. Ele pode sim influenciar, mas a partir de um olhar um pouco mais crítico e que mostra o quanto somos diferentes daquilo ou o quanto refletimos com aquela época e, até mesmo, perceber aonde se chegou com aquela ideologia para, por fim, termos que nos afastar daquele caminho que nos levou até a destruição mais psicológica do que material da Segunda Guerra Mundial, por exemplo.
"O caboclo não dá pela coisa" civilizatória por sua ignorância e pela nossa ignorância chegamos aonde chegamos e ficamos com dívidas históricas com dezenas de pequenas minorias que só sentiram-se existir dentro de si depois de muito tempo de silenciamento imposto e autoimposto. Por lhe negarem a própria existência como sujeito sua subjetivação tornou-se tardia, enquanto um sujeito se construía sobre os escombros de outros.
Exatamente, uma civilização só se constrói sobre os escombros de outra. E uma civilização só é melhor do que as outras quando está no auge do seu processo civilizatório e da sua influência fazendo com que seu passado se apague e somente permaneça na lembrança seu período de ouro. Mais uma vez em diferença, uma civilização só se constrói sobre os escombros de outra quando se pode aproveitar o que sobrou dos alicerces da outra e seguirmos em frente e não errar no mesmo amontoado de tijolos.
Jeca Tatu sou eu na medida que sigo avançando de fazenda a fazenda devastando a terra sob minha superstições, simplesmente porque os civilizadores verdadeiros ainda não foram ouvidos e se o foram só ecos de suas vozes chegaram-me aos ouvidos. "O caboclo é o sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas" da mesma forma quando eu começo a habitar árvore viçosa dos grandes pensadores e sugar dela tudo o que podia e, ao mesmo tempo, não conseguir produzir nada de duradouro.
"Só ele [o caboclo], no meio de tanta vida, não vive..." Só nós, no meio de tanta vida, não conseguimos viver porque ainda vivemos uma ilusão de vida que torna o humano cada vez mais incompleto ao negar sua própria possibilidade de existência ao almejar uma felicidade que só não é duradoura por ser incompleta ao negar seu oposto e suplemento. O homem só não é feliz porque nunca soube ser infeliz.